(Continuação do artigo anterior).
Com a iminência da Guerra de Tróia, Tétis buscou o adivinho Calcas para saber sobre o futuro de seu filho. Então a divina mãe soube que as Moiras, divindades relacionadas com o destino, condicionaram a vitória grega à morte de Aquiles. Na Ilíada, Homero descreve que Aquiles pôde escolher entre duas opções: “uma vida longa e inglória em sua pátria” ou “ter seu nome imortalizado, porém morrer prematuramente”.
Esse dilema pode ser percebido na vida das pessoas em todos os tempos e torna-se questão de estilo de conduzir a própria vida: tentar levá-la sem maiores riscos ou compromissos ou aproveitá-la intensamente, levando a marca de grandes feitos e proezas. Esta dúvida certamente se apresenta na vida das pessoas e provoca escolhas que trazem as devidas consequências.
Para Tétis, como mãe, não havia dúvida na preferência para que o filho fizesse a primeira opção. Certamente gostaria que ele vivesse o máximo de tempo possível. Para isso o levou Aquiles, vestido de mulher, para viver na ilha de Ciros entre as filhas do rei Licomedes. Na mitologia, o travestismo se relacionava a um rito de passagem da adolescência para vida adulta. Aquiles era aí chamdo de Pirra (a ruiva) por ser muito louro. O futuro herói aí permaneceu por algum tempo até que Ulisses (Odisseu, Rei de Ítaca) o encontrou e o convenceu a se juntar aos guerreiros gregos contra a cidadela de Tróia.
A Ilíada descreve em detalhes o último ano da famosa guerra. Os gregos estavam distantes de seu lar e havia conflito declarado entre Agamêmnon e Aquiles. O primeiro era o comandante das forças gregas que com pulso forte e ambição desmedida pelo poder não apresentava qualquer escrúpulo, como demonstrado no sacrifício de sua filha Ifigênia. Aquiles liderava os guerreiros do reino de seu pai Peleu e estava sempre em conflito com Agamêmnon por não concordar com os métodos do comandante e Rei de Micenas. O famoso guerreiro avesso à obediência sem restrições, mostrando personalidade forte e inclinações para a rebeldia. O objetivo do herói era atingir a “imortalidade” pelos seus feitos e não por exercer qualquer poder. O clímax do conflito entre os dois personagens ocorreu em função da disputa pela posse da troiana Briseis que foi aprisionada e feita escrava de Aquiles. Esta jovem e linda mulher era sacerdotisa de Apolo que juntamente com sua irmã Ártemis eram as divindades mais adoradas em Tróia. Com a insistêncica do comandante pela posse de Briseis, Aquiles retirou-se para seu acampamento com a intenção de afastar-se das batalhas.
Nesse ponto, o destino apresentou um fato inusitado: Pátroclo, seu fiel amigo desde os tempos de infância, vestiu a armadura do herói e foi para o campo de batalha. Heitor, o príncipe troiano, pensando tratar-se de Aquiles, travou violenta luta com ele e o matou.
Aquiles, ao tomar conhecimento da morte do amigo, voltou para o campo de batalha e buscou a vingança. Ensandecido e com ferocidade, buscou a revanche, desafiou, duelou e matou o herói troiano Heitor. Não satisfeito, pegou seu corpo e o arrastou pelos arredores até o seu acampamento – mostrando o corpo sem vida como se fosse um verdadeiro troféu. Este ato desrespeitou todo cavalherismo que permeava as lutas. Para haver um enterro que permitisse ao seu amado filho chegar ao Hades, o rei de Tróia Príamo foi até o acampamento de Aquiles e humildemente lhe implorou o corpo do filho para prepará-lo para ser enterrado.
Aquiles, ultrapassando os limites consagrados, perdeu a batalha contra si próprio, pois não demonstrou qualquer autocontrole, perdeu o estilo peculiar e agiu apenas com a emoção. Tudo isso foi-lhe mostrado com altives e sabedoria pelo pai do vencido Heitor, Príamo, que sai de sua inespugnável cidadela e humilha-se diante do guerreiro em prol da honra de seu filho. Não foi a vingança cega que motivou a ação de Príamo e sim a manutenção da nobreza e da fidalguia entre guerreiros.
O grande herói grego encontrou a sua morte através de um guerreiro aparentemente pouco preparado para enfrentá-lo: o jovem Páris que desencadeou o conflito pela posse da sua bela Helena. O deus Apolo, partidário dos troianos, guiou a pontaria de Páris para acertar a flecha em seu calcanhar, único ponto fraco do forte guerreiro. O ferimento causou sua morte, o que levou sua mãe solicitar a Zeus que ele fosse conduzido à Ilha dos Bem Aventurados (sub-divisão do Hades para onde iam os heróis após a morte).
Os guerreiros gregos se sentiam extremamente motivados com a participação de Aquiles. No contexto da nossa sociedade atual, batalhar com altivez mostra o ARQUÉTIPO ligado à atitude de Aquiles que orienta muitas pessoas nos grupos e nas organizações. Aponta ainda para aqueles que buscam desempenhar bem o seu papel, com objetividade e produtividade, sem no entanto se render ao uso e abuso do poder e nem se regalar com as pessoas de autoridade. Seria o bem agir sem a intenção de usufruir ou ascender para a posição do poder. Já as ações de Agamêmnon atualmente remetem à falta de escrúpulos, para quem não há limites na busca da ascensão pessoal e profissional. Mesmo com o sacrifício da própria filha (Ifigênia!) ou de conteúdos internos mais elaborados, pois para muitas pessoas que agem assim o que importa é o sucesso a qualquer preço. Se Aquiles cometeu a hýbris pela falta de controle das suas emoções, a ultrapassagem dos limites feita por Agamêmnon era seu próprio estilo de perseguir o poder a qualquer preço.
Para os gregos, os heróis nasciam dotados de timé e areté, assim como os deuses. Timé era a ética em todos os atos e areté correspondia a excelência tanto nas palavras usadas na oratória em assembléias, como também no uso de armas. As divindades podiam ultrapassar os limites. O herói por, ser mortal e humano, precisava respeitar o métron – a medida de todas as coisas e não ultrapassar os limites, o que corresponderia à hýbris, que era punida severamente pelos deuses.
Com a evolução da nação grega e certa ampliação da consciência, buscou-se valorizar não apenas a força física, mas também o conhecimento e a própria sabedoria.
O “calcanhar de Aquiles” foi a objetivação de uma fraqueza que se mostrou presente inicialmente no seu próprio interior: a busca da imortalidade para um humano iniciada pela sua própria mãe. Foi mostrado no corpo algo que simbolizava a desmedida nos próprios objetivos projetados na mente, além de uma ação no mundo em constante alternância entre dois polos: excelência das atitudes e a raiva instintiva e descontrolada.
É muito natural no ser humano, após realizar grande conquista ou feito, ser tentado por uma fantasia de poder em excesso, de ter atingido certo grau de desempenho que o deixa no ponto elevado da sabedoria. Mas essa posição é o marco dos deuses e assim a hýbris normalmente é sucedida por graves consequências. O orgulho da vitória pode trazer a semente de futuros conflitos, problemas e derrotas.
Foi a mensagem do deus Apolo para o desmedimento de Aquiles e a falta de consciência do seu ponto fraco. Mesmo sendo consagrado herói o seu comportamento foi, como diria Nietzche, “humano, demasiadamente humano”!
Com a iminência da Guerra de Tróia, Tétis buscou o adivinho Calcas para saber sobre o futuro de seu filho. Então a divina mãe soube que as Moiras, divindades relacionadas com o destino, condicionaram a vitória grega à morte de Aquiles. Na Ilíada, Homero descreve que Aquiles pôde escolher entre duas opções: “uma vida longa e inglória em sua pátria” ou “ter seu nome imortalizado, porém morrer prematuramente”.
Esse dilema pode ser percebido na vida das pessoas em todos os tempos e torna-se questão de estilo de conduzir a própria vida: tentar levá-la sem maiores riscos ou compromissos ou aproveitá-la intensamente, levando a marca de grandes feitos e proezas. Esta dúvida certamente se apresenta na vida das pessoas e provoca escolhas que trazem as devidas consequências.
Para Tétis, como mãe, não havia dúvida na preferência para que o filho fizesse a primeira opção. Certamente gostaria que ele vivesse o máximo de tempo possível. Para isso o levou Aquiles, vestido de mulher, para viver na ilha de Ciros entre as filhas do rei Licomedes. Na mitologia, o travestismo se relacionava a um rito de passagem da adolescência para vida adulta. Aquiles era aí chamdo de Pirra (a ruiva) por ser muito louro. O futuro herói aí permaneceu por algum tempo até que Ulisses (Odisseu, Rei de Ítaca) o encontrou e o convenceu a se juntar aos guerreiros gregos contra a cidadela de Tróia.
A Ilíada descreve em detalhes o último ano da famosa guerra. Os gregos estavam distantes de seu lar e havia conflito declarado entre Agamêmnon e Aquiles. O primeiro era o comandante das forças gregas que com pulso forte e ambição desmedida pelo poder não apresentava qualquer escrúpulo, como demonstrado no sacrifício de sua filha Ifigênia. Aquiles liderava os guerreiros do reino de seu pai Peleu e estava sempre em conflito com Agamêmnon por não concordar com os métodos do comandante e Rei de Micenas. O famoso guerreiro avesso à obediência sem restrições, mostrando personalidade forte e inclinações para a rebeldia. O objetivo do herói era atingir a “imortalidade” pelos seus feitos e não por exercer qualquer poder. O clímax do conflito entre os dois personagens ocorreu em função da disputa pela posse da troiana Briseis que foi aprisionada e feita escrava de Aquiles. Esta jovem e linda mulher era sacerdotisa de Apolo que juntamente com sua irmã Ártemis eram as divindades mais adoradas em Tróia. Com a insistêncica do comandante pela posse de Briseis, Aquiles retirou-se para seu acampamento com a intenção de afastar-se das batalhas.
Nesse ponto, o destino apresentou um fato inusitado: Pátroclo, seu fiel amigo desde os tempos de infância, vestiu a armadura do herói e foi para o campo de batalha. Heitor, o príncipe troiano, pensando tratar-se de Aquiles, travou violenta luta com ele e o matou.
Aquiles, ao tomar conhecimento da morte do amigo, voltou para o campo de batalha e buscou a vingança. Ensandecido e com ferocidade, buscou a revanche, desafiou, duelou e matou o herói troiano Heitor. Não satisfeito, pegou seu corpo e o arrastou pelos arredores até o seu acampamento – mostrando o corpo sem vida como se fosse um verdadeiro troféu. Este ato desrespeitou todo cavalherismo que permeava as lutas. Para haver um enterro que permitisse ao seu amado filho chegar ao Hades, o rei de Tróia Príamo foi até o acampamento de Aquiles e humildemente lhe implorou o corpo do filho para prepará-lo para ser enterrado.
Aquiles, ultrapassando os limites consagrados, perdeu a batalha contra si próprio, pois não demonstrou qualquer autocontrole, perdeu o estilo peculiar e agiu apenas com a emoção. Tudo isso foi-lhe mostrado com altives e sabedoria pelo pai do vencido Heitor, Príamo, que sai de sua inespugnável cidadela e humilha-se diante do guerreiro em prol da honra de seu filho. Não foi a vingança cega que motivou a ação de Príamo e sim a manutenção da nobreza e da fidalguia entre guerreiros.
O grande herói grego encontrou a sua morte através de um guerreiro aparentemente pouco preparado para enfrentá-lo: o jovem Páris que desencadeou o conflito pela posse da sua bela Helena. O deus Apolo, partidário dos troianos, guiou a pontaria de Páris para acertar a flecha em seu calcanhar, único ponto fraco do forte guerreiro. O ferimento causou sua morte, o que levou sua mãe solicitar a Zeus que ele fosse conduzido à Ilha dos Bem Aventurados (sub-divisão do Hades para onde iam os heróis após a morte).
Os guerreiros gregos se sentiam extremamente motivados com a participação de Aquiles. No contexto da nossa sociedade atual, batalhar com altivez mostra o ARQUÉTIPO ligado à atitude de Aquiles que orienta muitas pessoas nos grupos e nas organizações. Aponta ainda para aqueles que buscam desempenhar bem o seu papel, com objetividade e produtividade, sem no entanto se render ao uso e abuso do poder e nem se regalar com as pessoas de autoridade. Seria o bem agir sem a intenção de usufruir ou ascender para a posição do poder. Já as ações de Agamêmnon atualmente remetem à falta de escrúpulos, para quem não há limites na busca da ascensão pessoal e profissional. Mesmo com o sacrifício da própria filha (Ifigênia!) ou de conteúdos internos mais elaborados, pois para muitas pessoas que agem assim o que importa é o sucesso a qualquer preço. Se Aquiles cometeu a hýbris pela falta de controle das suas emoções, a ultrapassagem dos limites feita por Agamêmnon era seu próprio estilo de perseguir o poder a qualquer preço.
Para os gregos, os heróis nasciam dotados de timé e areté, assim como os deuses. Timé era a ética em todos os atos e areté correspondia a excelência tanto nas palavras usadas na oratória em assembléias, como também no uso de armas. As divindades podiam ultrapassar os limites. O herói por, ser mortal e humano, precisava respeitar o métron – a medida de todas as coisas e não ultrapassar os limites, o que corresponderia à hýbris, que era punida severamente pelos deuses.
Com a evolução da nação grega e certa ampliação da consciência, buscou-se valorizar não apenas a força física, mas também o conhecimento e a própria sabedoria.
O “calcanhar de Aquiles” foi a objetivação de uma fraqueza que se mostrou presente inicialmente no seu próprio interior: a busca da imortalidade para um humano iniciada pela sua própria mãe. Foi mostrado no corpo algo que simbolizava a desmedida nos próprios objetivos projetados na mente, além de uma ação no mundo em constante alternância entre dois polos: excelência das atitudes e a raiva instintiva e descontrolada.
É muito natural no ser humano, após realizar grande conquista ou feito, ser tentado por uma fantasia de poder em excesso, de ter atingido certo grau de desempenho que o deixa no ponto elevado da sabedoria. Mas essa posição é o marco dos deuses e assim a hýbris normalmente é sucedida por graves consequências. O orgulho da vitória pode trazer a semente de futuros conflitos, problemas e derrotas.
Foi a mensagem do deus Apolo para o desmedimento de Aquiles e a falta de consciência do seu ponto fraco. Mesmo sendo consagrado herói o seu comportamento foi, como diria Nietzche, “humano, demasiadamente humano”!
6 comentários:
Estava aguardando a complementação com esse artigo. Posso dizer que agora vi muito mais sentido e não apenas histórias inventadas nesse grande filme. Isso me deu muita motivação para continuar a receber e acompanhar o conteúdo desse blog.
Adorei a idéia de poder conhecer melhor sobre a mitologia e a Grécia através do blog!
Ingrid e Bosco vocês cada vez mais contribuindo para a nossa evolução. PARABÉNS!!! Trabalho lindo esse de vocês, adorei!
Está para mim muito mais fácil e didático do que as aulas da faculdade que na verdade não explicavam nada!
Estou ansiosa pelo livro, e irei assistir novamente os filmes, porque agora terei uma outra ótica.
Quais são os dias e horários do grupo de estudo?
Estou realmente admirado. Sou engenheiro civil e resistia muito a esses assuntos. Fui instigado pela minha mulher e não é que acabei gostando? Já estou reservando os filmes na locadora... é uma outra maneira de ver o mundo. Continuem o trabalho!!! Contem com meu apoio para divulgá-lo.
A gente vê tanta besteira na internet e acaba descobrindo esta jóia de blog! Vou acompanhar com o maior prazer. E já me inscrevi, claro!
A mitologia aparece como uma fonte enriquecedora e inesgotável de estudos,poder se aprofundar no assunto e relacioná-la com as vivências humanas,ou seja, com a nossa vida,é um privilégio,só para constar,a capa tá LINDA,imponente e chique.
Eii gente, amei o blog, os textos estao otimos, estou morrendo de saudade!beijaoo!saudade
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