20 janeiro 2009

Os gregos estão de volta




OS GREGOS ESTÃO DE VOLTA


Este primeiro artigo do ano apresentará alguns pontos das nossas atividades e mostrará, na sequência, um resumo de artigo publicado no jornal O GLOBO (17 janeiro 2009, Caderno ELA) com o título OS GREGOS ESTÃO DE VOLTA. Neste início de um novo ano, percebemos certo retorno dos valores gregos atuando na sociedade e na cultura, ganhando destaque na mídia.

Este é portanto o ponto de reinício dos nossos artigos e vamos diretamente a alguns pontos gerais:

1) GRUPOS DE ESTUDOS. Há articulações diversas no sentido de fechar grupo de estudos nos módulos de INTRODUÇÃO À PSICOLOGIA JUNGUIANA e também MITOLOGIA GREGA. Os encontros semanais são dinâmicos, colaboram para aspectos culturais e de autoconhecimento, como também para a discussão em grupo de aspectos das vivências humanas à luz dos conhecimentos da psicologia e da mitologia. São grupos de 6 a 8 pessoas que se reúnem em dois turnos de 1h e 15min, com um pequeno intervalo. Os períodos disponíveis são as noites de terças, manhãs e tardes de quartas. Quem tiver interesse pode solicitar mais detalhes por email, como indicado no blog.

2) EVENTOS sobre nosso livro. Tivemos dois eventos sobre o nosso livro: na livraria Argumento do Rio Design Barra e na FNAC do Barrashopping. Agradecemos aos amigos a presença e também o estímulo. É muito importante perceber que pessoas usufruem e colaboram com os assuntos e temas desenvolvidos. Deixamos alguns volumes disponíveis em São João del-Rei(MG) com Lurdinha (Largo do Rosário, 74).

3) CURSO DE FÉRIAS. Está em pleno andamento esta atividade na Universidade Estácio de Sá. As turmas de A LINGUAGEM SECRETA DOS SONHOS e INTRODUÇÃO À PSICOLOGIA JUNGUIANA estão em pleno andamento num ritmo tranqüilo e ao mesmo tempo vibrante, com a participação estimulante de bom número de pessoas. Em julho a atividade deverá ocorrer novamente nos Campus Akxe e Tom Jobim (Barra da Tijuca).

4) ARTIGOS NO BLOG. É importante que as pessoas se cadastrem para recebê-los. Entretanto o envio para os endereços pessoais ocorrerá em números alternados. Assim, as pessoas poderão acessar o blog para a leitura daqueles não enviados. E poderão perceber notícias e novidades, como também fazer comentários e sugestões.

5) OS GREGOS ESTÃO DE VOLTA (O Globo, 17 jan 09). Resumo do artigo.

Quando a crise bate, a tendência é buscar a solução nos ensinamentos da Grécia. Assim, retomam-se antigos valores gregos na moda, na culinária, na forma de pensar o mundo e em outras vertentes.

Como o homem pode alcançar a felicidade? Qual o sentido da vida? Estas e tantas outras perguntas feitas pelos (filósofos) gregos estão na ordem do dia. Há um crescente número de cursos diversos sobre o tema Grécia, ocorrendo inclusive listas de espera.

O filósofo Fernando Muniz explica que o retorno aos gregos é cíclico e surge em momentos de crise, como o atual. Mas por que será que, desde o Renascimento, há esse retorno cíclico aos gregos? Frisando que só retornamos porque viemos de lá, o mencionado filósofo diz que nossas origens têm raízes nos gregos. E acha que a tentativa de retornar a eles ocorre quando estamos buscando um ponto de partida. Uma busca que é praticamente uma viagem.
- É curioso, porque o retorno é um tema grego. A Odisséia é a história do retorno e também do reconhecimento, explica. Quando volta para Ítaca, Odisseu se perde e é exatamente ao se perder que ele acaba se reconhecendo e voltando para casa.

Para esse autor, quando retornamos aos gregos, de certa forma queremos voltar para casa. Não em busca daquilo que nos é familiar, mas de um lugar onde exista outra possibilidade de vida.
- Então não é uma volta ao passado, mas uma projeção para o futuro. Nós queremos ir até onde eles estão e, nesse sentido, eles estão muito além.

Lembrando que o momento atual é de muito vazio, algo inabitável, ele diz que voltar aos gregos é também apreender a experiência de um passado riquíssimo que possibilita entender o mundo, os outros e nós mesmos.

Com um viés psicanalítico, o autor alerta para que não nos atiremos numa busca narcisista.
- Não podemos querer encontrar nos gregos aquilo que já somos. Nesse sentido a Odisséia é modelar. Para Odisseu (Ulisses) se reconhecer, foi preciso que, de certa maneira, ele se perdesse. Para encontrar outra possibilidade, é preciso se perder. E os gregos nos oferecem essa oportunidade porque são diferentes de nós. Eles pensavam, viam e sentiam completamente diferente.

Segundo Muniz, fomos reconduzidos a um individualismo egoísta, em que os próprios desejos e satisfações são moedas de troca. E, ao mesmo tempo em que isso é uma evidência inegável, há uma percepção, principalmente na juventude, do quanto isso é insuportável em termos de vida. Surge uma tentativa de encontrar modos de construção de uma forma digna de viver. – De que maneira eu posso tornar minha existência digna, um valor não comercializável, ou seja, a vida não no sentido fisiológico, mas no sentido ético? Esse senso de dignidade da vida se perdeu. A dignidade como comportamento ético, mais ou menos inspirada na citação de Sócrates: Uma vida que não se examina não merece ser vivida.

O vazio que sentimos hoje nos coloca em sintonia com os gregos. Porque ao pensar neles invocamos o aspecto trágico da existência, a compreensão da vida a partir dela mesma.. E como estamos diante de um futuro muito tenebroso, nossos jovens que olham esse horizonte e acabam tendo pouca razão para ter qualquer tipo de sonho, otimismo ou utopia. Dessa forma, experimentam um desamparo diante da vida que se aproxima da cultura trágica. Esse espetáculo da fragilidade humana, que é a tragédia, segundo esse filósofo, hoje encontra público numa juventude desiludida diante do mundo. Para ele, os alunos hoje sentem uma identificação com esse universo, achando que com os gregos eles se sentem acompanhados.

Para o escritor e psicanalista Carlos Eduardo Leal, os gregos estão de volta simplesmente porque foram eles que levantaram as melhores perguntas sobre o ser humano e pensaram como respondê-las. - Questionamentos sobre a tranquilidade, felicidade e ética são fundamentais e até hoje estão sem respostas. Portanto, voltar à sabedoria grega é buscar respostas para nossa angústia recorrente.

Para Leal, o terceiro milênio não trouxe as respostas que muitos esperavam. Seja do ponto de vista religioso, psicanalítico, ético/moral. Faltam caminhos que guiem o homem, e ele tem consciência de que a psicanálise não dá respostas, porém sua experiência expõe questões fundamentais sobre os limites do homem. É preciso dar um basta ao conceito abrangente de globalização que propõe um mundo sem bordas, sem limites. Alguém já viu uma piscina sem bordas, um rio sem margens? Pois o que o mundo tenta é fazer um ser humano sem limites.

Leal acha que isso beira a perversão. Ele cita as tragédias naturais (Santa Catarina) ou entre os homens (guerra, narcotráfico, escândalos financeiros), destacando que elas também estimulam o retorno aos gregos, que tinham na tragédia o drama humano por excelência: o herói e um destino inequívoco a cumprir. E complementa:

- O mundo anda perdido, deambulando, tal como Édipo em Colona, já cego pelos crimes cometidos: parricídio e incesto. Diante desse avanço irrefreável, às cegas, muitos buscam respostas atuais para antigas questões. E buscar sabedoria é buscar um sentido para a vida. O que é clássico. Então eu pergunto: a angústia diante da falta de respostas para a vida nos reenviará sempre aos gregos, aos consultórios dos psicanalistas ou às igrejas?

6) Nossa conclusão sobre o artigo acima:
O enfoque psicanalítico ressalta a importância do assunto e certamente auxilia numa melhor compreensão da realidade que vivemos atualmente. Jung, no desenvolvimento da Psicologia Analítica, dedicou muita atenção no estudo e nas relações dos conteúdos da mitologia grega em nossas vivências, como também da filosofia. Ele tornou-se um profundo conhecedor desses temas e questionamentos que auxiliam tanto o ser humano individualmente no seu processo de individuação como também na atividade clínica. Mitos e sonhos constituem farto material para ser trabalhado e elaborado na relação analítica, colaborando na transformação individual e coletiva.

Com esse potencial criativo, que retorna sempre para nossas vivências, os gregos, os mitos, os questionamentos e os deuses são representantes dos arquétipos do inconsciente coletivo. Estas questões estão bem desenvolvidas no nosso livro MITOLOGIA E VIVÊNCIAS HUMANAS, mostrando que os mitos são sempre atuais, participando das imagens e emoções que acompanham nossas vidas. O conhecimento dos mitos permite um questionamento tanto pessoal quanto coletivo, polos indissociáveis da experiência humana. Nesse sentido, não só a leitura desse livro como também a participação nos Grupos de Estudos podem auxiliar no conhecimento maior de si próprio, dos valores gregos e da própria humanidade.

12 dezembro 2008

Feliz Natal! Ótimo 2009!




I - Desejamos a todos os amigos e assinantes do blog muita saúde, paz e harmonia para comemorar esta marcante data e época. É um rito de início de um novo ciclo e esperamos que o Menino Deus encontre eco junto da eterna criança que vive em todos nós. Que ela esteja desperta, atenta e liberada para usar de suas capacidades na esfera criativa e pronta a viver plenamente os necessários momentos lúdicos.

Essa liberação encontra o momento adequado próximo ao solstício de verão, quando os dias mais longos são propícios para mais intensa vida ao sol e ar livre. É o momento também adequado para profunda reflexão sobre as etapas e as passagens com que nos defrontamos no nosso caminho. Muita energia, equilíbrio e harmonia para todos.



II - Nosso Livro: MITOLOGIA E VIVÊNCAS HUMANAS


Já está disponível para as livrarias. A aquisição pode ser feita com remessa pelo correio pelo “Francisco” da Livraria Palmieri (endereço de email na barra esquerda do blog). É um livro para leitura e também para consulta, pois apresenta a Mitologia Grega de forma ordenada e comentada em termos de vivências humanas de todas as épocas. A contextualização do surgimento dos mitos, origens, povos e sincretismos são muito importantes, como também a narrativa final do livro que focaliza a importante transição sinalizada pelo mito de Édipo. A visão da Psicologia Analítica sobre narcisismo também é um ponto marcante.



III – Artigos no Blog


Faremos um recesso nesse período de comemorações, retornando até meados de janeiro de 2009 com novos artigos e contando com participação, sugestões e críticas dos amigos e assinantes.

Alguns artigos são mais densos que outros. Abordamos temas que podem ser complexos, mas são desenvolvidos de forma a facilitar ao máximo possível a compreensão pelo leitor não especialista do assunto. A finalidade é trazer certa reflexão e por vezes muitos conteúdos vão se relacionando e convergindo mais à frente com a apresentação de outros artigos.


IV – Cadastro no Blog


É muito importante para sabermos da participação real das pessoas. Estimula a continuidade dos trabalhos e mostra que a energia circula no grupo.


V – Curso de Férias


Ótima oportunidade fornecida pela Universidade Estácio de Sá em janeiro/fevereiro 2009. São apenas 4 aulas com assuntos muito interessantes. Ver a participação de Bosco, na barra esquerda do blog, ministrando disciplinas sobre Psicologia Analítica e também Sonhos.


VI – Grupos de Estudos 2009


Também indicados na barra esquerda do Blog. Oportunidade para aprender, discutir, refletir sobre a Mitologia e a Psicologia Analítica e suas interações na vida cotidiana. São manhãs, tardes ou noites plenas de satisfação, possibilidades de ampliar o auto-conhecimento, tudo isso com pequenos grupos e orientação adequada. São atividades muito prazerosas para quem participa. Faça contato conosco: inscreva-se!!!

09 dezembro 2008

O galo meteorologista do Carmélio


Os mistérios das Minas foram decantados pelo sensível ficcionista Guimarães Rosa. Quanto mais ele cresceu para o mundo mais se aprofundou na sua própria terra, conhecendo sua gente e seus campos ilimitados e Gerais.

“...Mas eu queria que a madrugada viesse. Dia quente, noite fria... eu dormia logo. Sonhava. Só sonho, mal ou bem, livrado. Eu tinha uma lua recolhida. Quando o dia quebrava as barras, eu escutava outros pássaros... Atrás e adiante de mim, por toda a parte, parecia que era um bem-te-vi só... - Gente! Não se acha até que ele é sempre um, em mesmo?... E permaneci duvidando que seria – que era um bem-te-vi, exato, perseguindo minha vida em vez, me acusando de más-horas que eu ainda não tinha procedido. Até hoje é assim...” (*1, p. 30).

Coisas de Minas, onde existe um jeito especial de perceber e se relacionar com o mundo. O detalhe pode ganhar importância vital e os grandes fatos vistos com certa despretensão. Depende do momento, da inspiração, do vento, da natureza em volta. Tudo é percebido na doce mistura de sensação e intuição.

Sim, o mineiro autêntico se aproxima do objeto para percebê-lo com os cinco sentidos. Em cada situação ele parece ver, tocar, ouvir, cheirar e degustar o objeto da sua (des)atenção. Depois ele se afasta calmamente e começa a apreciar à distância. Tudo isso pode ser muito rápido. Ou não, depende da ocasião. E assim ele faz uma avaliação mais geral, deixa fluir sua intuição e tenta perceber de onde veio tudo aquilo e qual é o seu destino.

Avaliação de mineiro é assim – é por inteiro, no total. E nem por isso ele vai gostar de dizer sua opinião. Essa é só dele, a princípio. E assim ele vai vivendo junto com a natureza, integrando-se com os seus detalhes.

E você já viu um mineiro jogando truco? Aí ocorre o refinamento das artes teatrais, mostrando as inversões mais absurdas. Daquela carinha de aparente necessidade de auxílio surge a jogada final surpreendente e vitoriosa. Assim o jogo vira festa, vale subir na cadeira e até na mesa, numa euforia gritante e desequilibrada.

Meu amigo Carmélio era mestre nessas pelejas. Se deixassem que ele embaralhasse as cartas, podendo vê-las enquanto as manuseava, saberia a ordem completa à medida que o jogo fosse transcorrendo. Como? Não sei. Era assim. Ele era pessoa simples, sem muitos estudos, dava aulas de sensibilidade e sintonia com o mundo. Estava à frente do seu tempo, adorava desafios, novidades e trabalho.

De vez em quando eu ia até sua fazenda para usufruir do bom papo e calor humano, tudo isso com a desculpa de uma rápida pescaria nas lagoas provisórias das águas do Rio das Mortes. Essa era a fazenda Santa Lúcia, orgulho da família. Mas de certa vez ficamos restritos ao interior da casa-sede até não mais poder, pois a chuva não dava trégua. Depois de algumas rodadas de truco, divertindo-se a valer, mesmo sem deixar isso muito claro, ele se entusiasmou: “- Pessoal, vamos fechar o jogo e preparar a rede. A chuva já está passando... a pescaria será muito boa!”

A afirmativa categórica surpreendeu todo o grupo de amigos. Questionado, Carmélio perguntou se não ouvimos o canto do galo. Cada um vasculhou sua memória de curto e médio prazo e até nos cantos mais profundos. Alguns lembraram de ter ouvido a manifestação do rei do terreiro. E aí, o anfitrião, pescador e truqueiro, afirmou: “Se o galo canta desse jeito é porque a chuva está indo embora!”

Dez minutos após estávamos de saída, eufóricos para mais uma pescaria bem sucedida e plena de alegrias com o pesado troféu de lambaris, traíras, acarás e outros pequenos nadadores. E como bônus a mineirice da paisagem com coqueiros, rio, córrego, montanhas e os trilhos da “Maria-fumaça”, que cruzavam a região beira-rio da fazenda, onde se encontram os dois rios das Mortes: grande e pequeno. Um cenário encantador.

Muitos anos se passaram após essas marcantes vivências. O que fica registrado com mais energia na nossa memória é aquilo que toca nas profundezas do nosso ser e no nosso coração. Essas são as marcas que nos acompanham pelo resto da vida.

O prosseguir por vezes traz surpresas e ligações com o passado (e o futuro!). Vieram assim os estudos da Psicologia Analítica que mostram as ligações de tudo que é humano e universal. Muitos aspectos ligam todos os homens como se a humanidade fosse realmente uma só família. É encantador verificar os laços humanos na mitologia, artes, culturas, religiões, sonhos, folclore – tudo isso nos conduz ao mesmo rio na busca do mar comum a todos.

Jung encontrou forte componente histórico na Alquimia para ilustrar suas concepções sobre a Psicologia Analítica. É um estudo complexo e que mostra a sabedoria que esteve sempre disponível na história da humanidade, mostrando que a Psicologia Analítica tem seus paralelos e bases com o desenvolvimento do conhecimento do homem. Assim Jung valorizou imensamente o trabalho de Paracelso (1493-1541, médico, alquimista, físico e astrólogo) e cita algumas concepções (*2, p. 129-131):

A idéia das centelhas (scintillae) como sementes de luz que provinham do caos e da mente humana, estando assim presentes tanto no exterior como no interior de cada pessoa. Essa centelha de luz esclarece e ilumina o ser humano nos momentos difíceis e obscuros, ou seja, ele tem esse potencial criativo. E todas as coisas da natureza trazem, em níveis diferentes, essa centelha para a realização da vida. A sua percepção englobava a certeza de que tudo na natureza, incluindo os animais, tinham um certo “brilho” que dignificava sua própria existência.

No que diz respeito aos homens, esta visão pode ser comparada com a versão filosófica dos arché (a priori) das imagens eternas de Platão. Desse mundo das idéias vem a capacidade de verificação das “cópias” no mundo sensível e dos objetos. Esta noção mostra que os arquétipos possuem em si certo brilho ou semelhança com a consciência, realçando os conceitos de lúmen (relativo à luz) e númen (como se fosse algo mais brilhante que a luz, ou seja, percebido como divino). Estas centelhas surgem como inspirações e têm a propriedade de poder ampliar a consciência, trazendo assim novas possibilidades de vivências, enriquecendo a existência do ser humano. Cita Paracelso: “E do mesmo modo como no homem não pode existir nada sem o númen divino, assim também nada pode existir no homem sem o lúmen natural. São estas duas únicas partes: o númen e o lúmen que tornam o homem perfeito.” O assunto é complexo e ao mesmo tempo encantador.

Com os significados e menções ao longo da história desses termos por vários estudiosos, Jung foi verificando o embasamento para suas concepções práticas dos arquétipos e do Si-mesmo. Ele percebia nas pessoas a dinâmica entre o mundo interior e a vida prática das pessoas.

Prossegue Paracelso: “a estrela deseja levar o homem para a grande sabedoria... para que ele apareça maravilhoso na luz da natureza, e os mistérios da maravilhosa obra de Deus sejam descobertos e revelados em sua grandeza.” Ele compara cada homem com um astro e é como se o homem extraísse sua luz de uma estrela maior, sendo necessário que cada um venha a nascer para essa estrela. Menção parecida é feita por Mateus 5, 14: “Vós sois a luz do mundo.”

É importante observar que o homem é elevado assim a uma condição de um astro que recebe e proporciona luz, pois ele é “dotado com a luz perfeita da natureza”, sendo este o tesouro que encerra dentro de si.

Nesta concepção alquímica, a luz da natureza está sempre presente e tudo engloba. “Os animais também possuem a luz natural que é um ‘espírito inato.’” Como ilustração desse estado de participação...... “como os galos que anunciam com seu canto as futuras condições meteorológicas....”

Nesse ponto da leitura, sou inclinado a fechar o livro e os olhos. Há algo de humano compartilhado e sem as delimitações de tempo, espaço e cultura. Carmélio e seu galo meteorologista interagiam porque os canais estavam interligados e disponíveis naquela pessoa sintonizada com as coisas do mundo. Sua percepção através de outras funções que não o pensamento e o sentimento permitiam esse contato maior e mais amplo com a natureza assim disponível e iluminada por essa luz interior.

Certamente aquele amigo não teve contato algum com tratados alquímicos ou filosóficos, mas trazia dentro de si, cultivada e muito acesa, a luz e o númen inerentes ao ser humano. E que muitas vezes são desprezados, mas que podem ser despertados e liberados por um galo meteorologista!

A linguagem da natureza pode ser compreendida pelas pessoas sensíveis. Como disse Guimarães Rosa: “Aprendi algumas línguas estrangeiras apenas para enriquecer a minha própria.” O poeta cresceu em direção ao macrocosmo e retornou para a vivência também do seu microcosmo e do próprio interior.


Ref.
(1). GUIMARÃES ROSA, J. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
(2) JUNG, C. G. A natureza da psique. Petrópolis: Vozes, 2000. O.C. vol VIII/2.